Depois de ter escrito o post abaixo, falando sobre viagens à Europa, fiquei com a consciência pesada (ouvia, no fundo da minha mente, a Laura dizendo "ah, pena que eu não era amiga da Patrícia quando ela era burguesa" ou "momento me achei") e decidi escrever sobre algo mais sério.
No semestre passado, o professor de História da América III estabeleceu que a segunda avaliação seria um trabalho em grupo, cujos tópicos seriam escolhidos por nós. Eu, a Lurdinha, Tati e Guilherme optamos por trabalhar com os impactos da globalização na América Latina, escolhendo o movimento mexicano do Exército Zapatista de Libertação Nacional. O EZLN não aparece tanto na mídia quanto as Farc, o Sendero Luminoso ou até o MST, mas muitos conhecem o seu famoso porta-voz, sub-comandante Marcos. Ele é a voz do movimento - literalmente -pois sempre aparece com um daqueles gorros que cobre a face, deixando só os olhos de fora. Todos no movimento utilizam isso, pois acima dos indivíduos está a causa, que é melhoria de vida para o povo mexicano.
Durante a elaboração do trabalho, fizemos muita pesquisa. O Guilherme achou muita coisa, e gostou tanto do assunto que vai fazer o TCC dele sobre isso. E o assunto realmente é fascinante. O EZLN é fascinante por várias razões: o sub-comandante Marcos é praticamente um poeta, todas as declarações de Selva Lacandona foram divulgadas com ele como porta-voz. Ao estudar, cada vez mais, vinha aquela vontade de pegar e se juntar ao movimento, lutar contra as injustiças do mundo! Parece ridiculo, mas deu vontade mesmo, porque indigna muito ver o descaso que o México (assim como todos paises latino-americanos) tem com suas minorias, em especial os indígenas. O racismo, o preconceito, o abandono e a marginalização dessa grande camada da população não difere muito do que vemos aqui, por exemplo, com os indígenas, com os afro-descendentes, com os miscigenados, etc. Esquecidos, considerados refugo humano, nas palvras do Baumann, só são lembrados quando invadem uma fazenda, cometem um crime, bloqueiam uma estrada...Aí aparecem no noticiario, como vândalos marginais. E só assim mesmo para aparecer. Nossos Estados nesse continente só lembram dessa galera nesses momentos e, claro, quando fazem política de "segurança pública", porque cadeia é a resposta pra esse refugo que não tem lugar no mundo globalizado e neoliberal.
Tá, to escrevendo demais, assunto sério, não é tão divertido como ler sobre Paris ou coisas amenas. Então, abaixo coloco a Primeira Declaração de Selva Lacandona (que fica em Chiapas, região sul do México), quando surgiu o movimento em 1994:
Primeira Declaração da Selva Lacandona
HOJE DECIDIMOS. BASTA!
Janeiro de 1994
Ao povo do México
IRMÃOS MEXICANOS
Somos produto de 5000 anos de lutas: primeiro contra a escravidão, na guerra de Independência contra a Espanha encabeçada pelos insurgentes; depois para evitar sermos absorvidos pelo expansionismo norte-americano; em seguida, para promulgar nossa Constituição e expulsar o Império Francês de nosso solo; depois, a ditadura porfirista nos negou a aplicação justa das leis de Reforma e o povo se rebelou criando seus próprios líderes, assim surgiram Villa e Zapata, homens pobres como nós, e quem se negou a preparação mais elementar, para assim utilizar-nos como bucha de canhão e saquear as riquezas de nossa pátria, sem importar que não tenhamos nada, absolutamente nada, nem um teto digno, nem terra, nem trabalho, nem saúde, nem alimentação, nem educação, ser ter direito de eleger livre e democraticamente nossas autoridades, sem independência dos estrangeiros, sem paz nem justiça para nós e nossos filhos.
Porém, nós hoje dizemos BASTA!, somos os herdeiros dos verdadeiros forjadores de nossa nacionalidade, os despossuídos, somos milhões e chamamos a todos nossos irmãos para que se jsomem a este chamado como o único caminho para não morrer de fome ante a ambição insaciável de uma ditadura de mais de 70 anos, encabeçada por uma camarilha de traidores que representam os grupos mais conservadores e vende-pátrias. São os mesmos que se opuseram a Hidalgo e Morelos, os que trairam Vicente Guerrero, são os mesmos que venderam mais de da metade do nosso solo ao invasor estrangeiro, são os mesmos que trouxeram um príncipe europeu para nos governar, são os mesmos que formaram a ditadura dos científicos porfiristas, saõ os mesmos que se opuseram à expropriação petroleira, são os mesmos que massacraram os trabalhadores ferroviários em 1958 e aos estudantes em 1968, são os mesmos que hoje nos tiram tudo, absolutamente tudo.
Para evitá-los, e como nossa última esperança, depois de ter tentado tudo para pôr em prática a legalidade baseada em nossa Carta Magna, recorremos a ela, nossa Constituição, para aplicar o Artigo 39 que diz: "A soberania nacional reside essencial e originalmente no povo. Todo poder público emana do povo e se institui em benefício dele. O povo tem, todo o tempo, o inalienável direito de alterar ou modificar a forma de seu governo."
Portanto, de acordo com nossa Constituição, emitimos a presente declaração de guerra ao exército federal mexicano, pilar básico da ditadura que padecemos, monopolizada pelo partido no poder e encabeçada pelo executivo federal que hoje tem Carlos Salinas de Gortari como seuchefe máximo e ilegítimo.
Em conformidade com esta declaração de guerra, pedimos aos outros poderes da nação que restaurem a legalidade e a estabilidade da Nação, depondo o ditador.
Também pedimos aos organismos internacionais e a Cruz Vermelha Internacional que vigiem e regulem os combates que nossas forças travam, protegendo a população civil, pois nós declaramos, agora e sempre, que estamos sujeitos ao estipulado pelas Leis sobre a Guerra da Convenção de Genebra, constituindo o EZLN como força beligerante de nossa luta de libertação. Temos o povo mexicano do nosso lado, temos Pátria e a bandeira tricolor é amada e respeitada pelos combatentes insurgentes; utilizamos as cores vermelho e negro em nosso uniforme, símbolos do povo trabalhador em suas lutas de greve; nossa bandeira leva as letras EZLN, de Exército Zapatista de Libertação Nacional, e com ela iremos aos combates sempre.
Rechaçamos de antemão qualquer intento de desvirtuar a justa causa de nossa luta, acusando-a de narcotráfico, narcoguerrilha, bandidagem ou outro qualificativo que possam usar nossos inimigos. Nossa luta se apega ao direito constitucional e é motivada pela justiça e pela igualdade.
Portanto, e conforme esta declaração de guerra, damos às forças militares do EZLN, as seguintes ordens:
Primeiro: Avançar em direção à capital do país, vencendo o exército mexicano, protegendo em seu avanço libertador a populção civil e permitindo aos povos libertados eleger, livre e democraticamente, suas próprias autoridades administrativas.
Segundo: Respeitar a vida dos prisioneiros e entregar os feridos à Cruz Vermelha Internacional.
Terceiro: Iniciar julgamentos sumários de soldados do exército federal mexicano e da polícia política que tenham recebido curso e que tenham sido assessorados, treinados ou pagos por estrangeiros, seja dentro de nossa nação ou fora dela, acusados de traição à Pátria, e de todos aqueles que roubem ou atentem contra os bens do povo.
Quarto: Formar novas filas com todos aqueles mexicanos que manifestem somar-se à nossa justa luta, incluindo aqueles que, sendo soldados inimigos, se entreguem às nossas forças sem combater e jurem responder às ordens deste Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.
Quinto: Pedir a rendição incondicional dos quartéis inimigos antes de travar os combates.
Sexto: Suspender o saque de nossas riquezas naturias nos lugares controlados pelo EZLN.
Povo do México: Nòs, homens e mulheres íntegros e livres, estamos conscientes de que a guerra que declaramos é uma medida extrema, porém justa. Os ditadores estão aplicando há muitos anos uma guerra genocida não declarada contra nossos povos. Por isso pedimos sua participação decidida, apoiando este plano do povo mexicano que luta por trabalho, terrateto, alimentação, saúde, educação, independência, liberdade, democracia, justiça e paz. Declaramos a intenção de não deixar de lutar até conseguirmos o cumprimento destas demandas básicas de nosso povo, formando um governo livre e democrátio em nosso país
INTEGRE-SE ÀS FORÇAS INSURGENTES DO EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL
Comando Geral do EZLN
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